quinta-feira, 24 de março de 2011

Lígia

Sua magreza parecia sempre andar de lado. Os ombros furando o ar, chegando primeiro, já davam uma impressão de que a diferença do resto morava alí. O andar nem era imponente, tampouco despercebido. Deslizava em passos curtos e ágeis. Milimetricamente decididos antes do próximo. Aos tantos outros que exibiam falas preparadas, discursos ajeitados, ela, quando dava vida aos lábios, exibia palavras polidas, cheias de uma firmeza quase dona da verdade absoluta. Convencia como uma autoridade despacha uma ordem, um ponto final.
A natureza lhe presenteara uma carne fraquinha, uns olhos desconectados da visão comum, cabelos mirrados, caindo nos ombros pontiagudos, braços finos e mãos amarelas, sempre úmidas de uma urgência que latejava louca.
Ninguém diria que naquela cabeça traquinavam pensamentos como máquinas, absorvendo cada gota do que se passava e arquiteturas geniais de planos unilaterais que terminavam em gozos solitários de quem nasceu para ser vírgula quando todos são pontos...
Uma fantasia meio que de criança tomava aquele coração por vezes, alimentando a carne de aventuras que, nenhum dos comuns, jamais hesitaria em dizer. Daí escapuliam risos baixinhos dos lábios sem cor, como quem grita.
Tudo que lhe parecia ou era de fato uma ofensa passava ligeiramente despercebido, sobre o sexo e sua opção, sobre seu comportamento desigual e inalterado, sobre sua forma ímpar... O que, na verdade, não era, os outros que não lhe acompanhavam. Era par consigo mesma. Um mundo erguido dentro de seus miolos quentes e estratégicos. E ia longe, onde quase nenhum comum chegara.
Abrindo a porta da sala de reuniões dia desses, alguém indagou o motivo de seu silêncio obsoleto.
Respondeu como era de praxe: " Tenhos noites de intensas conversas com a lua, ela me gasta quase todas as palavras."

Nenhum comentário:

Postar um comentário